A recente escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã reacendeu o alerta global sobre os impactos econômicos de um conflito em uma das regiões mais estratégicas do planeta. Para o Brasil, os efeitos desta tensão geopolítica não se limitam às flutuações das bolsas de valores ou ao preço dos combustíveis nas bombas. O agronegócio, motor da economia nacional, encontra-se no centro das preocupações, enfrentando riscos que vão desde o encarecimento de insumos vitais até possíveis gargalos na logística internacional.
A complexidade da situação reside na importância do Irã e de seus vizinhos do Golfo Pérsico para o comércio internacional, especialmente no que tange à segurança energética e ao fornecimento de fertilizantes. Embora o Brasil não esteja diretamente envolvido no conflito, a interdependência dos mercados globais torna o país vulnerável às ondas de choque geradas pelos ataques recentes.
O Estreito de Ormuz: O Gargalo do Comércio Global
O ponto mais sensível desta crise é o risco de bloqueios no Estreito de Ormuz, uma passagem marítima de importância ímpar localizada entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. Com cerca de 33 quilômetros em seu ponto mais estreito, esta rota é responsável pelo escoamento de aproximadamente 20% do consumo mundial de petróleo e de um quinto do comércio global de Gás Natural Liquefeito (GNL).
O fechamento ou a restrição de tráfego nesta área, por motivos de segurança, eleva imediatamente o prêmio de risco, os seguros, os fretes e, consequentemente, os preços de energia. Segundo o economista Robson Gonçalves, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), os efeitos já são visíveis, com o preço do petróleo do tipo Brent registrando altas significativas logo após os ataques.
“O aumento do preço do petróleo rapidamente se converte em inflação global. Fretes ficam mais caros, insumos sobem e o custo final acaba chegando ao consumidor.” — Robson Gonçalves, economista da FGV.
A interrupção do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz tem o potencial de reter entre 20% e 25% do petróleo exportado no mundo, afetando diretamente as cadeias globais de suprimentos. Além do setor energético, a rota é estratégica para o transporte de fertilizantes, produtos químicos, plásticos e automóveis, o que amplia os efeitos econômicos para muito além do mercado de petróleo.
Um aspecto crítico e de extrema gravidade é que o fechamento do Estreito de Ormuz forçará também o fechamento do Canal de Suez, bloqueando as duas principais artérias do comércio marítimo global. Com ambos os canais inacessíveis, os navios serão obrigados a contornar todo o continente africano para chegar à Europa. Este desvio forçado aumenta drasticamente o tempo de trânsito das cargas e, consequentemente, eleva os custos operacionais e de frete de forma exponencial. Para o agronegócio brasileiro, esse cenário significa que as exportações de commodities enfrentarão atrasos de semanas e custos logísticos muito superiores, agravando ainda mais os impactos da crise no Oriente Médio.
Impactos Diretos no Agronegócio Brasileiro
Para o agronegócio brasileiro, a tensão no Oriente Médio apresenta um duplo desafio: a manutenção das exportações para a região e a garantia de suprimento de fertilizantes a custos viáveis.
O Irã como Parceiro Comercial
Em 2025, a relação comercial entre o Brasil e o Irã movimentou quase US$ 3 bilhões, com forte concentração em commodities agrícolas. O Irã destacou-se como o segundo maior destino em volume das exportações do agronegócio brasileiro, recebendo 11,5 milhões de toneladas de produtos.
A pauta de exportações brasileiras para o mercado iraniano é dominada por milho e soja, que juntos responderam por 87,2% do total exportado. A tabela abaixo detalha os principais produtos enviados ao Irã:
| Produto | Valor (US$) | Volume (Toneladas) | Principais Estados |
| Milho | 1,984 bilhão | 9 milhões | MT, PR, GO, MS, SP |
| Soja em grãos | 563 milhões | 1,3 milhão | MT, GO, SP, MG, PR, RS |
| Açúcar | 189 milhões | 499 mil | PR, SP, MS |
| Farelo de soja | 182 milhões | 581 mil | RS, PR, MT, SP |
Tabela 1: Principais produtos do agronegócio brasileiro exportados para o Irã em 2025. Fonte: Farsul / Times Brasil.
Qualquer instabilidade prolongada que afete a capacidade de pagamento do Irã ou as rotas logísticas para a entrega destes produtos pode representar um golpe significativo para os produtores brasileiros, especialmente nos estados do Centro-Oeste e Sul do país.
A Dependência de Fertilizantes
O calcanhar de Aquiles do agronegócio nacional, contudo, reside na importação de fertilizantes. O Brasil importa anualmente cerca de 7,7 milhões de toneladas de ureia, o equivalente a US$ 3 bilhões. Destes, o Irã fornece aproximadamente 184 mil toneladas (US$ 66 milhões), posicionando-se como o 10º maior fornecedor desta commodity para o Brasil.
Embora a participação iraniana direta pareça pequena (2,2% no valor e 2,4% no volume), a região do Golfo Pérsico como um todo é uma grande produtora e exportadora de fertilizantes. Uma disrupção regional tende a impactar fortemente o mercado global, elevando os preços e pressionando as margens de lucro dos produtores brasileiros.
A professora Ligia Maura Costa, da FGV, alerta que o possível ganho da Petrobras com o aumento do preço do petróleo não compensará os impactos negativos para a economia brasileira como um todo. “Nós usamos fertilizantes e esses fertilizantes são importados. E o fertilizante é a base do agro, então o custo para o agro vai aumentar”, explica.
A Dependência de Fertilizantes
O calcanhar de Aquiles do agronegócio nacional, contudo, reside na importação de fertilizantes. O Brasil importa anualmente cerca de 7,7 milhões de toneladas de ureia, o equivalente a US$ 3 bilhões. Destes, o Irã fornece aproximadamente 184 mil toneladas (US$ 66 milhões), posicionando-se como o 10º maior fornecedor desta commodity para o Brasil.
Embora a participação iraniana direta pareça pequena (2,2% no valor e 2,4% no volume), a região do Golfo Pérsico como um todo é uma grande produtora e exportadora de fertilizantes. Uma disrupção regional tende a impactar fortemente o mercado global, elevando os preços e pressionando as margens de lucro dos produtores brasileiros.
A professora Ligia Maura Costa, da FGV, alerta que o possível ganho da Petrobras com o aumento do preço do petróleo não compensará os impactos negativos para a economia brasileira como um todo. “Nós usamos fertilizantes e esses fertilizantes são importados. E o fertilizante é a base do agro, então o custo para o agro vai aumentar”, explica.
Perspectivas e Desafios Macroeconômicos
A equipe econômica do governo federal já avalia os impactos indiretos do conflito, ponderando sobre o freio de investimentos, a alta do petróleo e a repercussão da
inflação global. A elevação dos custos de energia e fertilizantes coloca no horizonte uma pressão inflacionária indiscutível, o que representa um cenário desafiador para a
política monetária.
Rogério Ceron, Secretário do Tesouro Nacional, sinalizou que a escalada da tensão no Irã pode, inclusive, antecipar a parada do ciclo de cortes de juros pelo Banco Central, caso o cenário de incerteza e o repasse para os preços se intensifiquem. Juros mais altos, por sua vez, significam menor crescimento econômico e encarecimento do
crédito para o produtor rural.
Em suma, a guerra no Oriente Médio, embora geograficamente distante, tem efeitos imediatos e profundos sobre a economia brasileira. Para o agronegócio, a palavra de ordem é cautela e planejamento estratégico. Acompanhar os desdobramentos geopolíticos, diversificar fornecedores de insumos e buscar eficiência logística serão passos fundamentais para mitigar os riscos e garantir a competitividade do setor em um cenário global cada vez mais volátil.

