As relações internacionais foram marcadas por uma escalada de tensões entre os Estados
Unidos e o Irã em janeiro de 2026, gerando um clima de incerteza que reverbera em todo o
cenário global. A mais recente medida anunciada pelo presidente norte-americano, Donald
Trump, de impor uma tarifa de 25% a países que mantêm relações comerciais com o Irã,
acende um alerta para o Brasil, cujas exportações para o país persa somaram quase US$ 3
bilhões em 2025. Este artigo analisa o contexto dessa crise geopolítica, os detalhes da nova
tarifa e os potenciais impactos para o comércio exterior brasileiro, com foco especial no
agronegócio.
O Cenário da Tensão: Protestos, Ameaças e Incertezas
O estopim da crise atual remonta ao final de 2025, quando protestos contra o governo
eclodiram no Irã, motivados por dificuldades econômicas estruturais e evoluindo para
manifestações contra o regime clerical. A repressão violenta por parte das autoridades
iranianas foi recebida com duras críticas da comunidade internacional, culminando em
ameaças de intervenção militar por parte do presidente Donald Trump. Em um cenário de
acusações mútuas, com Washington acusando Teerã de reprimir seu povo e o Irã acusando
os EUA de instigar os distúrbios, a tensão atingiu um ponto crítico em janeiro de 2026 .
Os sinais de escalada militar tornaram-se evidentes nos primeiros dias de janeiro. O Irã
chegou a fechar seu espaço aéreo por cinco horas no dia 15 de janeiro, enquanto os EUA
mobilizavam um porta-aviões para o Oriente Médio, em um claro sinal da gravidade da
situação . Essa escalada se soma a um histórico de atritos, incluindo ataques mútuos
em , que envolveram bombardeios americanos a instalações nucleares iranianas . A
situação permanece volátil, com o governo iraniano alertando seus vizinhos que abrigam
tropas americanas sobre possíveis retaliações contra bases dos EUA, enquanto Trump
mantém ameaças de ação militar.
A Tarifa de 25%: Uma Nova Arma na Guerra Comercial
Em 12 de janeiro de 2026, o presidente Trump anunciou a imposição de uma tarifa de 25%
sobre “todas as transações comerciais realizadas com os Estados Unidos” por “qualquer
país que faça negócios com a República Islâmica do Irã” . A medida, descrita como
“final e conclusiva”, teria aplicação “imediata”, mas até o momento não foi formalizada por
meio de um decreto ou norma oficial. O governo brasileiro, assim como outros parceiros comerciais do Irã, aguarda a publicação de uma ordem executiva para avaliar os impactos
concretos e os critérios de aplicação da tarifa .
A falta de detalhes sobre a implementação da tarifa gera incertezas consideráveis. Não está
claro se a medida se aplicaria apenas a novos contratos ou também a operações já em
vigor, nem quais são os critérios precisos para definir “fazer negócios” com o Irã. Essa
ambiguidade tem mantido empresas e governos em estado de alerta, aguardando
esclarecimentos que podem redefinir o cenário comercial global.
O Brasil na Encruzilhada: Análise do Comércio com o Irã
O Brasil mantém uma balança comercial superavitária com o Irã, que se consolidou como
um importante destino para as exportações brasileiras, especialmente no setor do
agronegócio. Em 2025 , o comércio bilateral apresentou os seguintes números:
Indicador Valor (2025)
Exportações Brasileiras US$ 2,9 bilhões
Importações Brasileiras US$ 84,5 milhões
Superávit para o Brasil ~US$ 2,8 bilhões
Apesar de representar apenas 0,84% do total das exportações brasileiras, o Irã é o quinto
principal destino dos produtos nacionais no Oriente Médio, ficando atrás apenas de
Emirados Árabes Unidos, Egito, Turquia e Arábia Saudita. O comércio é altamente
concentrado em produtos agrícolas, como detalhado na tabela abaixo:
Produto Participação nas Exportações para o Irã (2025) Valor (2025)
Milho 67,9% US$ 1,9 bilhão
Soja 19,3% US$ 563 milhões
Total (Milho e Soja) 87,2% ~US$ 2,5 bilhões
O Irã é um comprador estratégico para o agronegócio brasileiro, sendo responsável por
aproximadamente 11% das exportações de milho do Brasil . Essa dependência é particularmente significativa, considerando que o país persa é o 17º maior importador
mundial de milho. Para as exportações de soja, o Irã também representa um mercado
relevante, consolidando a relação como vital para o setor agrícola nacional.
Impactos Potenciais para o Brasil: Um Cenário de Incertezas
A eventual aplicação da tarifa de 25% pelos EUA pode trazer consequências significativas
para o Brasil em múltiplos setores. Produtos que atualmente entram no mercado norteamericano com isenção tarifária, como carne bovina em conserva e suco de laranja
congelado, poderiam passar a ser taxados com a nova alíquota de 25%. Para setores que já
enfrentam uma sobretaxa de 40%, como calçados e máquinas industriais, a nova tarifa
poderia elevar a incidência total para até 65%, reduzindo drasticamente a competitividade
dos produtos brasileiros .
O setor agrícola, principal pilar do comércio com o Irã, seria o mais vulnerável. A
necessidade de buscar mercados alternativos para o milho e a soja exportados para o Irã
poderia pressionar os preços globais desses produtos e gerar perdas significativas para os
produtores brasileiros. A situação é agravada pelo fato de que a China, maior parceiro
comercial do Irã, também seria afetada pela tarifa. Com volume de comércio bilateral
superior a US$ 13 bilhões anuais e responsável por 80% das importações de petróleo
iraniano, a China enfrentaria uma tarifa adicional de 25% sobre seus produtos nos EUA, já
que enfrenta uma tarifa base de 35% . Esse efeito cascata no comércio global de
commodities poderia intensificar a pressão sobre os preços de produtos agrícolas
brasileiros.
Contexto de Outras Medidas Tarifárias
É importante notar que essa não é a primeira vez que Trump utiliza tarifas como ferramenta
de pressão contra o Brasil. Em agosto de 2025, o presidente norte-americano aumentou
tarifas em produtos brasileiros para 50% em resposta ao tratamento do Brasil ao expresidente Jair Bolsonaro, um aliado político de Trump. Produtos como carne bovina, café
e suco de laranja foram afetados por essa medida anterior . A nova tarifa sobre parceiros
comerciais do Irã se soma a esse cenário de pressão tarifária já existente, potencialmente
criando uma situação ainda mais desafiadora para as exportações brasileiras.
Perspectivas Diplomáticas e Comerciais
O Brasil tem mantido uma postura equilibrada em relação ao Irã, especialmente desde que
o país persa se integrou aos BRICS em agosto de 2023, bloco do qual o Brasil é membro
fundador. Em abril de 2024, o ministro da Agricultura do Irã visitou o Brasil e se reuniu com
o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, resultando na criação de um comitê
agrícola bilateral. Durante essa visita, o governo iraniano também demonstrou interesse
em instalar uma empresa de navegação no Brasil, o que poderia reduzir custos logísticos e
impulsionar ainda mais o fluxo comercial entre os dois países .
O vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin, declarou que uma eventual sanção dos EUA
ao Irã não deveria afetar o Brasil, sugerindo que o governo brasileiro busca manter a
relação comercial com o Irã enquanto negocia com os EUA. No entanto, a ambiguidade da
tarifa anunciada por Trump deixa em aberto a possibilidade de que o Brasil seja
efetivamente afetado, dependendo de como a medida for implementada.
Conclusão: Navegando em Águas Turbulentas
O cenário de tensão entre Estados Unidos e Irã impõe um desafio significativo para o
comércio exterior brasileiro. A forte dependência do mercado iraniano para a exportação
de produtos-chave como o milho e a soja torna o Brasil particularmente vulnerável a
sanções e tarifas. Embora o governo brasileiro adote uma postura de cautela, aguardando a
formalização das medidas anunciadas por Trump, as empresas do setor precisam
monitorar de perto a situação e começar a traçar estratégias para mitigar os riscos.
A diversificação de mercados, a busca por maior competitividade e o fortalecimento de
laços diplomáticos com outros parceiros comerciais são caminhos que podem ajudar o
Brasil a navegar por estas águas turbulentas e a proteger seus interesses em um cenário
geopolítico cada vez mais complexo e imprevisível. Para empresas exportadoras,
especialmente no agronegócio, a recomendação é monitorar as negociações diplomáticas,
avaliar cenários alternativos de mercado e considerar estratégias de hedging para proteger
suas operações contra possíveis impactos tarifários.

